22 de junho de 2007

O último dia do escritor...


... sentado sobre a cadeira, com o rosto sobre o braço, ao lado do teclado de seu computador.


Assim foi encontrado o redator. Em seu departamento, muitos perguntavam por onde ele andava. "Trabalhando em casa." - uns diziam. "Vai ver foi pra casa de outro escritor" - uma secretária uma vez falou. "Passei por ele na cantina" - um officce-boy disse, de outra feita. Assim ninguém se preocupava em ligar, ou mesmo entrar em seu escritório. Ele não tinha secretária, e tampouco era subordinado a alguém.


Durante alguns anos o redator escrevia com vontade. Sabia ordenar bem as palavras, construindo expressões claras e carregadas de sentido. Muitos liam seus textos em silêncio reverente. Não eram raras as gargalhadas, em textos de humor, ou lágrimas em textos mais compenetrados.


Todos admiravam seus textos. Quaisquer textos: notas sucintas sobre pequenos eventos; anúncios variados (festas, casamentos, batizados, etc.). Até mesmo seus relatórios pessoais de visitas técnicas, da área de informática (sim, como qualquer escritor, ele também precisava de mais um emprego pra pagar as contas), possuíam um "quê" poético, que encatava os endurecidos corações dos supervisores da área.


Apesar dos constantes elogios, o redator/escritor possuía uma modéstia que o impedia de publicar seus textos, e se limitava a dar um sorriso quando alguém o elogiava publicamente. Não gostava de alarde, muito menos de bajuladores.


Certa feita, quando entrou para o curso de pós-graduação em Teoria da Literatura, o escritor pensou: "Ótimo! Vou aprender mais coisas para melhorar meus textos". E assim passou o primeiro semestre, mergulhado em textos teóricos, fazendo trabalhos, debatendo em sala de aula, pesquisando, nadando em livros de biblioteca. Qualquer fato ao seu redor era um bom pretexto para relacionar suas teorias com o que ocorria.


O que ele estudava? Literatura e arte.


Aparentemente, algo não muito difícil. Relacionar um grande escritor: Guimarães Rosa, com um gravurista genial: Mauritis Cornelius Escher.


Tinha tudo à sua mão: livros, apostilas, bons professores, uma linha de raciocínio pertinente, exemplos anteriores, contraposições elaboradas, figuras, textos. Tudo perfeitamente alinhado, esperando a conclusão de suas matérias, e o desenvolvimento de seus textos. Ao falar de seu trabalho, a empolgação era nítida. Seu rosto transfigurava, e seus espectadores ficavam hipnotizados com suas explicações. Sua paixão por seu trabalho mantinha uma luz acesa em seu rosto constantemente.


Um dia, sumiu. Ninguém mais o viu. Não sabiam de seu paradeiro. Nenhum telefonema foi dado, assim como e-mail, carta ou mensagem de celular. Simplesmente sumiu.


Como disse antes, seu desaparecimento nem foi notado. Ele sempre estava de bem com a vida. Muitos amigos. Era a alegria da festa. Seu semblante sereno não transmitia nenhuma preocupação com nada. Quando lhe perguntavam como ia o trabalho, sempre respondia "Vai bem". Ou dizia "A escrita é lenta, mas está rendendo". Mal sabiam que esta escrita era árdua, dolorosa, intensamente sofrida. Desta vez as palavras vinham machucando-lhe os dedos, os olhos, o corpo. Não conseguia sentar-se para escrever e permanecer mais de dezoito minutos quieto. Algo o incomodava. Várias vezes procurava outra coisa pra fazer, desviando sua atenção da leitura ou escrita de seu trabalho: jogos, e-mails, piadas, Orkut, Youtube, desenhos animados, bolinhas de papel, e até futebol com moedas jogou, só pra evitar olhar para seu texto. Algo havia acontecido. Quando falava sobre sua pesquisa, era comovente, porém sua escrita havia se transformado em algo totalmente estranho. E ele reconheceu este Estranho que se aproximava. Em torno de si, algo faltava. Tudo na mais perfeita ordem, mas algo faltava.

(Provavelmente, ele havia escapado de si). Cancelou trabalhos encomendados. Parou de frequentar festas. Não mandava mais notas para serem publicadas.

Aos poucos, foi se ausentando dos outros, sem eles notarem.


Agora, apenas ruínas. Ele havia se transformado em "Não". A negação da escrita. Proibição da palavra, do logos que, vivo mote, o impulsionava para diante, emanando de si as palavras que queria. Como Tudo reside na linguagem, a ausência da linguagem o conduzia ao Nada. Estava agora na outra condição. No reverso do humano. Seu ser imerso no espelho. Sua essência transmutada. Alquimia reversa, que o conduzira pelas esferas contrárias.


Não se deve realizar obras sem esforço, e seu esforço agora era para tornar à sua condição anterior...

Um comentário:

Carol Costa disse...

Freud se deleitaria interpretando esse post...