25 de abril de 2007

Por você, pai.

Quando menino, sempre fui gordinho. Meus pais me tratavam bem, com comida boa e carinho. Mas também conheci o desprezo e as palavras duras, a agressão (física, verbal e psicológica) e os traumas, que me afetaram durante anos, transformando em vinagre minha infância e adolescência.
Um dia, enquanto criança, eu estava com várias preocupações: a prova da manhã seguinte; os garotos da educação física, que nunca me escolhiam pra jogar bola, pois eu era gordo; as garotas, que sempre me olhavam e riam (era o que eu pensava); meu irmão, que sempre me humilhava, e fazia juras de surras, quando meus pais não viam. Cabisbaixo, em mexia na terra molhada, e pensava o quanto o mundo era ruim. Vi um besouro e o matei. Instantaneamente me veio ao pensamento: "ele não tem culpa!", e fiquei mais triste.
Meu pai aproximou-se, como de costume, disfarcei com um sorriso e gestos mais soltos. Ele percebeu e me perguntou o que me afligia. Já cansado de tantas preocupações (e não zombe, adultos e crianças têm preocupações semelhantes, de intensidades idênticas) contei o que se passava.
- Deite aqui - disse ele, enquanto sentava e me cedia o colo.
Eu deitei, meio triste.
- Descanse. O amanhã ainda não chegou. A prova não veio. Os exercícios, garotos e garotas também não. Nem as agressões e tristezas. Apenas me diga, agora, o que você sente?
- Me sinto bem - respondi.
- E por que? - ele retrucou.
- Porque estou no seu colo, ora.
- Então, a partir de hoje, quando qualquer coisa te assustar ou angustiar, lembre-se de que há um colo te esperando, e este sentimento de agora voltará. Afaste-se do que é mal, e daqueles que o praticam. Busque a Paz, e siga-a.
Hoje, décadas depois, percebi que ele não queria me dar uma fórmula mágica do tipo "mentalize e tudo se resolverá". Na verdade, o "colo" que ele queria que eu me lembrasse era um exercício de descobrimento, de busca da minha identidade e força interna. Nada de auto-ajuda. Era pura filosofia.
Meu pai era um sábio. E uma as maiores lições que me deixou foi que, em meio à angústia (como agora) devo buscar o aconchego do Pai, confiando em mim, e na Sua presença.
Nunca estou só. Por isso nada temo. Não entro em êxtases ou depressões, e nunca desistirei de lutar. Posso cometer grandes falhas, como ter lançado em outras pessoas (ou besouros) minhas angústias e traumas, mas tentarei nunca mais fazer isto. Todos também tiveram ou têm seus temores, e não devo julgá-los.
(Enquanto isto, o anjo de YHWH se acampa ao meu redor, e me livra de todos os meus temores.
Sorrindo, durmo.)

2 comentários:

Ruiva disse...

A lembrança de seu pai deve sempre existir como uma força motivadora! Lágrimas devem ser devidamente derramadas quando a saudade vier, mas deve-se lembrar que são lágrimas boas, de amor. Mas, mais do que isso, são lágrimas que te carregam de volta ao colo de seu pai, para que ele novamente possa te dizer que há sempre um colo te esperando, que ele te ama e torce por você sempre.

Quando as lágrimas chegarem - e elas chegarão de vez em quando - deixe que elas venham, lavem a alma e tragam de novo o tão querido e saudoso colo de pai, para que você possa sempre recomeçar: com mais força, com mais coragem e com muito mais amor!

Você é maravilhoso. Seu pai com certeza está (sempre) muito feliz e orgulhoso por você.

Beijos com ombro, colo, carinhos e palavras boas para você, sempre que precisar!!

Carol Costa disse...

Sabe, Ozzi, eu interiorizei a figura da Mãe do mesmo jeito que você fez com seu Pai. Com a diferença de que a minha nunca foi muito carinhosa, mas minha Mãe inventada, essa sim, era boa de colo e de cafuné!