23 de maio de 2007

Famigerado dia...



Após meses sem pisar em sala para dar aula, consegui uma chance em uma disciplina da graduação de meu curso. O tema: traduções. De textos, e intersemióticas.
Depois dos primeiros cinco minutos de gagueira e língua travada, percebendo a cara de "?" do pessoal, consegui dar alguns exemplos mais "práticos" de tradução intersemiótica: as adaptações feitas para o cinema de clássicos da literatura como "O Conde de Monte Cristo" e "O Morro dos Ventos Uivantes".
O exemplo que levei para apresentar foi o conto "Famigerado", do livro Primeiras Estórias, de João Guimarães Rosa (foto ao lado).
O curta feito por Aloísio Sales Júnior, cineasta mineiro, foi muito bem recebido, principalmente por sua proximidade com o texto.
Contei outras experiências que fiz com filmes, pinturas e mesmo com músicas, em sala de aula. Já discuti aspectos míticos e religiosos (ou, mais exatamente, maniqueístas) do filme "Senhor dos Anéis". Já apresentei música, para que os alunos percebecem narrativas ou estilos literários, sem saber o nome do compositor (os utilizados foram: Bach, Tchaikovisky e Camille de Saint-Saëns - representando o barroco, romantismo e realismo da música). Apresentei uma aula de Wuxia-pien, estilo poético chinês do período da unificação, e assim abordei a potência poética do filme "Herói", de Jet Li.
Mas os melhores resultados foram de mostrar imagens de Basquiat para uma turma de graffiteiros, e apresentar slides de alguns quadrinistas (Marcelo Lélis, Mozart Couto, Angeli, Fernando González, Bill Waterson, Quino etc.) para apresentar temas políticos, sociológicos e mesmo filosóficos.
Mas o melhor mesmo foi poder falar. De livros, filmes, arte marcial, cinema
Creio que, depois de meses longe de sala de aula, enferrujaram meu raciocínio, e senti a língua travada, porém percebi que é exatamente isto que quero pra mim: ensinar.
Não há maior diversão do que compartilhar conhecimento e aprender com as experiências de outros.
Sina, eu sei. Não terei fama, ou bens materiais. Mas sou cabeça dura, e tenho memória curta para problemas ou decepções.
Acho que ainda há muito o que aprender. Pessoas a conhecer. Coisas a desenvolver.
Deslumbrado? Inocente? Alienado? Eu?
Talvez.
Não poderia ser diferente.
Prefiro viver cada momento na humildade do aprendiz, e assim sempre aprender de outros, do que subir no pedestal da auto-suficiência, e estar só.
Ah! E obrigado, Lu, por haver me convidado para assistir estas aulas. Você ajudou esta "articulação rizomática" que me levou ao convite para participar d' A Tela & O Texto.
Alguns dizem: "Mais um dia, mais um dólar".
Eu acho que "mais um dia, mais um encanto". E trazendo pra cá uma das várias citações presentes em Tutaméia, de Rosa, eis Sextus Empiricus:
"Agora, que já mostramos seguir-se a tranqüilidade à suspensão do julgamento, seja nossa próxima tarefa dizer como essa suspensão se obtêm".

Um comentário:

Ruiva disse...

Não tem que me agradecer. Tem que ser professor mesmo! E nem deu pra perceber o nervosismo ou a gagueira, viu? Larga de ser bobo e assume logo que vc é foda! ;)

Bjs e parabéns!